Mapa Balcãs – Iugoslávia

P.S.1- Embora tenhamos encontrado várias fontes que incluíam a Romênia como parte dos Bálcãs, os  próprios romenos não se consideram. O mesmo, com relação aos turcos e alguns gregos.

P.S.2-vários países, incluindo o Brasil, não reconhecem a independência do Kosovo. Fica a critério do leitor, enxergar a linha da fronteira com a Sérvia como de um país, ou como de uma província.

P.S.3-O governo grego, assim como grande parte da população não concordaria com a palavra Macedônia acima, se referindo ao país, que para eles, deveria se chamar FYROM: Former Yugoslavian Republic of Macedonia. Consideram Macedônia apenas a região situada no norte da Grécia. Os dois países disputam a nacionalidade de Alexandre, o Grande, e a mudança do nome é a condição dada pelos gregos para não votar contra a o ingresso do vizinho na União Européia.

Assim são osBálcãs. Até o simples ato de desenhar um mapa traz uma série de implicações políticas.

O começo

A entrada nos Balcãs foi mais gradual do que a princípio imaginei.

Trieste, no nordeste da Itália, foi nossa última parada na Europa Ocidental, mas até a 2ª Guerra Mundial a cidade se chamava Trste e era a mais importante da Eslovênia – ainda hoje há impressões stencils com um inflamado “Trste é nossa” nos muros de Liubliana, a capital do país. A cidade fica em um tentáculo italiano que avança no litoral esloveno e a fronteira é tão próxima que os triestinos abastecem seus carros no país vizinho, onde o combustível é mais barato. Como não poderia deixar de ser, é um lugar de transição, com placas bilingües nas cidadezinhas vizinhas e famílias que não falam italiano. Há ainda nessas vilas a tradição eslovena das osmizas, quando famílias transformam seus quintais em cantinas que servem só o que foi produzido ali – vinho, presunto, pães, tomates secos, azeitonas e queijos.

Trieste

Em Trieste pegamos o ônibus para Liubliana. São 2 horas de viagem por uma estrada de montanhas e árvores: foi assim que um dos países mais verdes da Europa foi se apresentando. E então chegamos na capital, que é pequena, linda, limpa e cara. A parte antiga da cidade cresceu ao redor de um castelo, protegido pelo rio Liublianica, com arquitetura austro-húngara. No centro histórico, as ruas são cheias de bebês e bicicletas e o trânsito é só de pedestes, para o prazer dos turistas e incômodo dos moradores que precisam de carros. E há músicos na beira do rio, com acordeões e instrumentos de sopro. A cidade é tão perfeitinha que parece saída de um conto de fadas.

Fora do centro, arquitetura comunista, grandes parques, alojamentos universitários, casas sem muros, quintais com frutas. A cidade vai raleando até se transformar em pequenas vilas, várias delas com fortes de pedra em cima de montanhas.

E os eslovenos são muito gentis, falam inglês bem e são mais pontuais do que razoável – os trens saem às vezes 2 minutos antes do horário. Nos restaurantes, cerveja em canecas de meio litro, muitas massas, presuntos crus e wi-fi.

Trieste

Ainda sobre Trieste:

– Antiga cidade-estado portuária. Junto com Veneza e Dubrovnik, eram os mais importantes portos do Mar Adriático.

– O vento Borá, que chega do sul no inverno, só não carrega as pessoas porque existem algumas alças espalhadas pela cidade para os pedestres se segurarem…

– Depois da I Guerra Mundial, Trieste foi anexada à Itália. De 43-45,  foi ocupada pelos nazistas. De 45-47, pelos Partisans iugoslavos. De  47-54 voltou a ser zona-autônoma, em um acordo entre os Partisans (Tito) e os Aliados (EUA e UK). Em 54 voltou a fazer parte da Itália.

– O Triestin é considerado um idioma à parte, mais do que um dialeto. E os moradores consideram a cidade praticamente ainda como uma cidade-estado. Se referem ao resto da região de Friuli-Venezia Giulia (que falam o dialeto friulano) de um modo como se não pertencessem à ela.

– O psiquiatra veneziano Franco Basaglia desenvolveu na cidade a Psiquiatria Democrática, que revolucionou, humanizando, o tratamento mental nos anos 60. A cidade mantém intenso intercâmbio com o Brasil neste campo.

– Proximidade cultural com os Bálcãs. No verão, festival de música balcânica e êxodo em massa para as praias e mais de mil ilhas croatas.

Interseções

Muitas são as diferenças entre os países da ex-Iugoslávia, mas existem também algumas semelhanças:

1) Nostalgia por Tito – Principalmente entre os que viveram entre 43 e 80, quando todos tinham trabalho, liberdade de ir e vir, relações pacíficas e mesmo afetivas com os vizinhos de república (muitas famílias se misturavam). Tito conseguiu unificar a região com carisma, charme e violência – já que reprimia severamente qualquer manifestação separatista – “mas nada comparável com o que fizeram depois dele”, como dizem hoje.

2) Língua – Na época da Iugoslávia, a língua oficial era servo-croata (do ramo eslavo). Com o desmembramento, cada país começou a deliberadamente tentar acentuar seus regionalismos, e a chamá-la de sua. Agora, os sévios falam sérvio; os croatas, croata, e assim por diante. Quase todos podem ainda se comunicar facilmente. Os eslovenos entendem mais do que são entendidos. A língua macedônica é mais próxima da búlgara (os búlgaros a consideram apenas um dialeto da sua).  Sérvia,  Macedônia e Bulgária, apesar de terem a gramática, a fonética e a sintaxe bem próximas dos vizinhos, usam o alfabeto cirílico. Os kosovares são exceção. São de etnia Ilíria (albanesa),  e falam albanês. Na época da Iugoslávia, aprendiam sérvio-croata como segunda língua. Hoje, apenas os mais velhos  ainda a sabem­­.

Verso da caixa de cereal, com o mesmo texto escrito em croata, sérvio, esloveno e búlgaro.

3) Café turco – a água é esquentada junto com o café, que é servido sem filtrar. O excesso de pó fica no fundo do bule, que possui a base mais larga que o topo. Só que em Sarajevo, o chamam de café bósnio; na Macedônia, de macedônio; e na grécia, de grego.  Na Sérvia, ouvi algumas vezes o termo “National coffee”. Na Eslovênia, Croácia , Montenegro, e Kosovo, ele segue sendo turco. Na Turquia,  a borra do fundo é usada para se ler os futuros.

4) O Clone – Novelas brasileiras, mexicanas e turcas são um grande sucesso em todos os países da ex-Iugoslávia (e também na Albânia). Assim como no Brasil, existe a “hora da novela”, em que 3 gerações, principalmente de mulheres, se reúnem em torno da TV.  No caso de “O Clone”, foi uma febre, principalmente por tocar na questão do casamento entre cristãos e muçulmanos. Hoje em dia, dependendo da região, os jovens de religiões/etnias diferentes eventualmente ficam, apesar de não ser muito comum, mas raramente se casam. Na época da Iugoslávia, casamentos inter-religiosos era mais comuns. Por causa da novela, é freqüente, quando menciono ser brasileiro para alguma mulher, que me peçam sorrindo para falar um pouquinho de português-brasileiro, que tem se tornado um tanto familiar para eles (já que as transmissões são em português, legendadas ), ou me perguntem pela Jade.

5) Big Brother (Velika Brat) – O reality show neste ano foi um sucesso. Realizado na Sérvia, com participantes de quase todos os países do ex-bloco (a Eslovênia tem o seu próprio – talvez pelo fato da língua ser menos parecida com as outras, ou por ser, culturalmente, um tanto mais austríaca – além de ser a única do ex-bloco a fazer parte da União Européia. Já o Kosovo, tem o seu Big Brother junto com a Albânia).

O programa é transmitido em todos os países participantes, porém cada um tem o seu apresentador local. Neste ano, surpreendentemente para todos, a vencedora foi uma croata casada, que teve uma relação extra-conjugal com um participante sérvio em rede internacional. O público se envolveu em uma novela em que o amante, depois de eliminado do programa, se revelou um cafajeste na opinião deles; e a protagonista, vitimizada, se tornou a heroína entre católicos, ortodoxos e muçulmanos. Por alguns meses, os espectadores sublimaram suas diferenças e tiveram um gostinho do tempo em que elas não importavam. Por alguns meses, a nostalgia por Tito se fez fato.

Ao longo dos anos

Conhecemos o Nenad nas montanhas croatas, em uma vila de sérvios chamada Moravice. Estávamos há menos de uma semana nos Balcãs,  e ele nos deu dois exemplos para ilustrar a complexidade da região.

A avó do Nenad nunca deixou de morar em Zagreb mas teve 7 nacionalidades. Ela nasceu no Império Austro-Húngaro, em 1908. Com o fim da 1ª Guerra Mundial, em 1918, ela passou a ser cidadã do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (SHS), que em 1920 passou a se chamar Reino da Iugoslávia. Na 2ª Guerra Mundial a Alemanha e a Itália invadiram e desmembraram o país e em 1941 foi criado um Estado croata independente pró-nazista. Em 1945 o Eixo foi derrotado e a região foi reunificada com o nome de República Federativa Popular da Iugoslávia, substituída em 1963 pela República Socialista Federativa da Iugoslávia. Em 1991 ela passou a ser moradora da capital da República da Croácia.

Durante a maior parte de sua vida – 46 anos – ela foi iugoslava. Para enaltecer a grandiosidade do país, mas também tornando óbvia a sua complexidade, a Iugoslávia era descrita como um país com 6 repúblicas (Eslovênia, Croácia, Sérvia, Macedônia, Bósnia e Herzegovina e Montenegro), 5 etnias (eslovenos, croatas, sérvios, macedônios e montenegrinos), 4 línguas (esloveno, croata, sérvio e macedônio), 3 religiões (católicos, ortodoxos, mulçumanos), 2 alfabetos (cirílico e latino) e 1 presidente, Tito.