Rupturas

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Além de todas as tragédias, a guerra foi responsável por uma infinidade de rupturas afetivas. Quando estourou, em 1992, a Lilian, diretora de um centro cultural de Zagreb, de mãe croata e pai montenegrino, era casada com um ator de origem sérvia, que trabalhou em um dos primeiros filmes do diretor Emir Kusturica (Kusturitza).

{Os filmes do Kusturica e a música balcânica, representada ali por Goran Bregovic(h) e sua banda, popularizaram os Bálcãs em muitos países, mas na Bósnia, país de origem do diretor, ele é hoje persona non grata. Dizem que estava de acordo com a propaganda de Slobodan Milosevic(h) (presidente sérvio ultra-nacionalista), que ignorava os bósnios em seus filmes e que renunciou às suas origens ao se rebatizar na Igreja Ortodoxa Sérvia como Nemanja. Seu nome anterior era Emir (príncipe, em árabe), que o vinculava à sua origem bosniak (bósnios muçulmanos). Ele teria declarado que os eslavos se converteram ao Islã apenas para sobreviverem aos invasores otomanos, e que agora aquilo fazia parte do passado.­ ­Não o perdoam por ter se convertido a sérvio, em plena guerra da Bósnia. Consideram esta uma ruptura definitiva.}­­

Mas não era desta ruptura que estava falando, mas da do ator de um dos seus filmes com a Lilian, por causa da guerra. Na época da Iugoslávia, era comum a mistura nas famílias entre pessoas das etnias das 6 repúblicas que formavam o país. Com a guerra, vários laços foram desatados geograficamente pelo Estado, mesmo os de sangue. No início dos conflitos entre Croácia e Sérvia, em 1991, os sérvios foram expulsos da Croácia e os croatas, para irem para a Sérvia, tinham que passar pela Hungria. O ator, que morava então em Zagreb, foi obrigado a voltar para Belgrado, criando uma distância que acabou destruindo a relação.

No dia em que ele telefonou para dizer que estava apaixonado por outra, ela concluiu:

“que nos separemos então de modo civilizado, recolhendo nossas partes com dignidade, como os tchecos e os eslovacos fizeram. Jamais como este horror que estão fazendo por aqui.”­­­­

(Por tantas rupuras, foi criado em Zagreb, por um ex-casal de artistas, o Museum of Broken Relationships)

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