Etno-Soccer

A primeira senha de wi-fi que recebi em Sarajevo, em um bar turco, foi “desouza”, sobrenome de Alex, ídolo do Fenerbahçe, time do lado asiático de Istanbul. Ele antes jogava no Cruzeiro, que por acaso é um time de Belo Horizonte, cidade onde nasci. Este fato aleatório e alheio a mim sempre trouxe grande vantagem no meu relacionamento com os turcos (principalmente para negociar!). Isto é, exceto entre os torcedores do rival, Galatasaray, time do lado europeu de Istanbul…

O futebol tem um enorme efeito diplomático. Mesmo sem assistir, é bom saber um pouco de geopolítica futebolística.

Na Bósnia e Herzegovina (BiH), como em muitos outros lugares, sempre que menciono ser brasileiro uma chuva de nomes de craques se segue (no caso das mulheres,  surgem personagens da novela “O Clone”, sucesso absoluto em todos os países da região). Mas no caso da BiH são citados especialmente os jogadores da Copa de 94, em que o Brasil foi tetra, como Romário, Bebeto, Edmundo, Branco, Dunga… Quando estranhei que eles tivessem acompanhado uma copa em plena guerra, me responderam: é claro! Ficamos sim, mais de um ano sem energia elétrica por causa da guerra, mas nós tínhamos gerador!

A copa foi uma forte forma de escapismo para eles. A Tropa de Libertação, que nunca chegava.

Soube disso através de dois irmãos bosniaks  (bósnios muçulmanos) de Mostar, que assistem até mesmo nossos campeonatos estaduais. Lá, o futebol tem um fortíssimo peso político-étnico-religioso (na BiH é quase impossível separar estes 3 conceitos) . Os dois times locais de futebol representam os dois lados da cidade dividida. O Velez, de Mostar Oriental, é o time dos bosniaks (popular, definido por eles como mais de esquerda),  sua torcida organizada é a “Red Army Mostar”. E os HSK Zrinjki, de Mostar Ocidental, time dos croatas católicos (mais alinhado com a direita), cuja torcida são os Ultra Zrinjki. Quando eles se enfrentam precisam ser escoltados por um batalhão inteiro da polícia, para assegurar que a guerra não recomece das cinzas.

Ganhei de presente uma camisa da “Red Army Mostar”, que recebi como a um documento histórico.  Só me recomendaram ­jamais usá-la do outro lado da ponte!

Em Skopje (se pronuncia Skópia), capital da Macedônia, tem o mesmo tipo de apartheid. Mas, no caso, os muçulmanos são minoria e são ilírios (de etnia albanesa). Também separados por uma ponte (arquitetonicamente bem semelhante à de Mostar), da maioria Macedônia (eslava) ortodoxa. Novamente, assim como em Mostar, as torcidas organizadas  travam sua mini-grande ­­guerra.

Volto a falar sobre futebol, e seus desdobramentos políticos, mais adiante, quando começarmos a postar especificamente sobre a Sérvia.

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