Ramadã

­­Quando começou o mês do Ramadã estávamos em Sarajevo, que entrou em um período de  efervescência, com mesquitas lotadas e clima de festa.

O Ramadã é um momento de purificação, de limpeza espiritual. Neste período, os muçulmanos devem se abster de água, comida, fumo e relações sexuais da alvorada ao crepúsculo. É também tempo de maior dedicação aos pilares religiosos, como a oração e a caridade. Corresponde ao nono mês do calendário islâmico, que é lunar. Em relação ao gregoriano, a cada ano ele acontece 11 dias antes e, em 34 anos, o praticante terá jejuado por todos os dias do ano.

Tanto em Sarajevo como em Mostar, na Bósnia e Herzegovina, pouco antes do sol se pôr filas se formam em frente às padarias, e um fogo de artifício anuncia para toda a cidade a esperada hora o desjejum, o Iftar. Daí, várias famílias se reúnem em volta das mesas nas varandas e terraços, para verdadeiros banquetes.

O Islã é praticado de modo bem moderado em todo os Bálcãs, mais ou menos como o Cristianismo seria no Brasil. A maioria das mulheres vai  à praia, têm uma vida parecida com a das jovens brasileiras. Normalmente não usam véu e, quando usam, são hijabs (que cobrem apenas o cabelo) de seda, coloridos ou floridos. Toquei nesse assunto com uma amiga montenegrino-albanesa-muçulmana e ela primeiro se alegrou, com orgulho da moderação religiosa deles, depois se queixou da presença de alguns jovens estrangeiros de barba longa que circulam pelas cidades, que seriam Mujahedins, lá chamados de Vehabijes, e que fariam parte de uma rede para promover o radicalismo em regiões onde o Islã é moderado. Eles, por exemplo, pagariam às mulheres para cobrirem seus cabelos, entre outras coisas.

Entre os muçulmanos de quem fiquei amigo, o Ramadã é praticado de formas bem diversas: Salem, que fez parte do exército bósnio durante a guerra, come normalmente, mas tenta não beber álcool durante o dia.

Sasha, um jovem guia turístico de Mostar, apesar de pertencer ao lado muçulmano da cidade, renunciou à religião: “já fizeram mal o suficiente na nossa história usando religião como desculpa”. Celebra o Bairam (palavra turca que significa feriado, mas lá se refere à noite do “Eid al Fitr”, ou “banquete do fim do jejum”) como jovens ateus brasileiros celebram o Natal.

Ibrahim, um senhor que aluga quartos para turistas em Ulcini, normalmente vai à mesquita para rezar apenas nas sextas. Durante o Ramadã vai todos os dias, depois do Iftar.

Foram as festivas famílias do Ibrahim e de sua vizinha, a Vildana, que nos convidaram para estendermos nossa estadia em Ulcini para participarmos do Bairam, quando a lua nova desponta no céu. Nos preparativos, passam dias limpando e arrumando suas casas, compram roupas novas, recebem parentes de fora. Por três dias é feriado. As crianças ganham doces e dinheiro, e um banquete magnífico é servido para amigos e parentes (as baklavas, doce folheado recheado de nozes e pistache, são o ponto alto).

Em Ulcini, na manhã do Bairan, os homens pela manhã rezam, depois comemoram dando tiros para o alto, antes de começarem com o grande festim.

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