Para as montanhas

O caminho para Theth começa às 7 da manhã em Shkoder, em frente a um café onde só homens se sentam. É lá que se pega a van para o trajeto chacoalhante de mais de 4 horas e meia para percorrer 90 km de distância. A direção é nordeste, sobe-se e desce-se montanhas e, no fundo de um vale, na beira de um rio transparente, está Theth, que não chega a ser nem uma vila.

As casas – talvez umas 20 – são separadas por plantações de milho e pequenos pastos divididos por cercas de madeira e ligados por escadinhas precárias, que não são mais do que ripas que sobem de um lado da cerca e descem do outro sem qualquer corrimão. Entre as casas, uma igreja com uma imagem de Madre Tereza de Calcutá. A escola é desproporcionalmente grande, vermelha, com desenhos da Disney pintados toscamente. Não há nenhuma venda, nenhum restaurante, nenhuma padaria. Para comprar, só café turco, amendoins e croissants industrializados, em um cubículo improvisado de 1×1 mt².

As casas têm cruz na porta e peles como tapetes. Na vila não há televisão, internet ou carros. Apesar das pessoas terem rádios e celulares, o lugar é isolado e autêntico. Theth é parte das montanhas e as pessoas que moram lá são parte da montanha.

As mulheres passam o dia fazendo pão, cuidando da casa, cozinhando. Os homens cuidam dos bichos, dos assuntos de fora, fazem consertos. Lá trabalha-se o tempo todo em um ritmo lentamente constante. Os adultos não falam qualquer outra língua que não o albanês, mas se comunicam bem com sinais, papel e caneta. As crianças, mesmo as pequenas, falam inglês. As pessoas são silenciosas e o barulho mais recorrente é o dos sininhos no pescoço das ovelhas e da água do rio descendo nas pedras – e toda água perto dali é potável.

Às vezes à noite se escuta tiros, que podem ser dos pastores espantando lobos e raposas ou de algum fazendeiro do outro lado daquelas montanhas*, marcando seu espaço e reforçando o seu poder. Mas é um barulho distante e a noite é tão escura que chega a proteger.

Theth faz parte de um outro tempo – lindamente. E a qualquer momento pode deixar de ser como ainda é, quando a estrada até lá não for mais tão precária e os turistas descobrirem o caminho.

* A Albânia é a terceira maior produtora de maconha do mundo e as fazendas ficam principalmente nessas montanhas do norte do país.

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3 comentários sobre “Para as montanhas

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