Religiões Moderadas e Fundamentalismo Ateu

A Albânia é vista de fora como um país islâmico, mas não é bem assim.

Como já escrevi aqui antes, a identidade nacional do país se dá mais através da língua e etnia ilíria do que pela religião, ao contrário do que acontece entre seus vizinhos iugoslavos. Não há dados oficiais atualizados, mas as fontes que encontrei estimam que, entre os que declaram pertencer a alguma religião, cerca de 70% são muçulmanos (grande maioria é sunita, mas existe uns poucos de um ramo turco do Islã chamado bektashi, originado da tradição Sufi), aproximadamente 20% são ortodoxos (ao sul do país), e 10% são católicos (ao norte). Mas a maioria das pessoas não é praticante.

Historicamente, o Império Romano foi o responsável por extinguir as diversas religiões pagãs das tribos Ilírias, impondo o catolicismo. Com a divisão do Império, no séc. XI, grande parte do país, que ficou para o lado Bizantino, se converteu ao cristianismo ortodoxo, com exceção do montanhoso norte do país, que conseguiu  permanecer católico.

Com a invasão Otomana, a maioria da população se converteu, ou fingiu se converter ao islã, já que com isso teriam uma série de privilégios, como a redução de impostos, por exemplo.

Em todos esses impérios, a religião tinham um forte poder de integração, de demarcação de territórios. Mas com a queda dos Otomanos, no final da I Guerra, e a chegada da monarquia, os regentes perceberam que a Albânia dividida, com tantas fronteiras invisíveis internas, como cicatrizes das dominações passadas, não seria simples de ser governada. Assim, iniciaram uma campanha pelo patriotismo secular, como Ataturk vinha fazendo na Turquia, com slogans como “Nossa religião é o Albanismo”.  Foi nesse período que começou a haver um resgate da Identidade Ilíria.

Com o comunismo, depois da II Guerra, o incentivo ao ateísmo virou imposição. Um governo fundamentalista ateu, que desapropriou igrejas, mosteiros e mesquitas, transformando-os em armazéns ou ginásios. Os católicos, considerados pelo governo como um resquício deixado pelos fascistas italianos, foram expulsos, quando não exterminados. A perseguição se radicalizou ainda mais em 67, quando a Albânia foi considerada a “Primeira Nação Ateísta do Mundo”. Materialismo científico compulsório.

Carne de porco era imposta em escolas e fábricas, para detectar os muçulmanos não declarados, ou empurrar-lhes o ateísmo guela abaixo; refeições diurnas eram servidas durante o Ramadã; e carne bovina, em períodos de jejum para os cristãos. Inclusive as casas das pessoas, território inviolável na tradição albanesa, eram revistadas em busca de objetos religiosos.

Enquanto isso, na Iuguslávia de Tito, a religião era proibida somente para membros do Partido. Na sociedade, cultos eram feitos com descrição. A prática religiosa era desestimulada, mas não proibida. Tito sabia que era impossível reprimir a fé até o fim, e que não seria vantajoso arriscar sua imensa popularidade de líder libertador tentando. Ele sempre procurou unir através da noção de iugoslavismo e em torno de sua própria imagem.

Com a morte de Hoxha, em 85, a tolerância foi gradualmente voltando, até que com a queda do regime comunista na Albânia, em 90, o país se tornou uma democracia secular e capitalista com total liberdade religiosa para a população. Muitos abraçaram a religião como simples símbolo de liberdade, sem de fato freqüentarem igrejas ou mesquitas.

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