Sangue se paga com sangue

Foi somente quando estávamos para partir que tomamos conhecimento do Kanun e dos feudos de sangue.

O Kanun é um código de conduta ancestral, que foi regulamentado pela primeira vez pelo príncipe albanês Lekë Dukagjini no século XV, apesar de suas regras já existiam desde bem antes da Idade Média. Se baseia em quatro pilares – honra, hospitalidade, conduta e lealdade aos parentes mais próximos -, e trata de todos os aspectos mais importantes da vida nas montanhas, como a organização econômica das famílias, a fraternidade, os clãs, as fronteiras, o trabalho, o casamento, as terras etc. O código é usado tanto por católicos quanto por muçulmanos e, parte da tradição oral do país, só no século XVI foi escrito pela primeira vez.

Mas o que mais surpreende nele é a parte que se refere aos feudos de sangue, ou crime de vendeta, que são guerras travadas entre dois clãs. Estes feudos são regidos pela lógica do olho por olho, dente por dente, e têm como ponto central a legitimidade de uma família matar, dentro de certas regras, todos os homens adultos de uma outra que desonrou ou assassinou um de seus membro sem um motivo justo, como legítima defesa. E então tem início a uma matança cíclica, já que ao ter algum parente morto, a família do executado também passa a ter direito de assassinar os homens da outra família. Os assassinatos, assim, só terminariam quando já não houvesse mais homens ou quando um clã perdoasse o outro, o que exige uma complicada negociação.

Esta prática foi muito reprimida durante o regime ditatorial de Enver Hoxha. Com o colapso do comunismo, em 1990, e a precariedade do sistema judicial, eles foram retomados em algumas partes. Desde então, mais de 10.000 homens foram assassinados e mais de 1.000 crianças foram impedidas de ir para a escola, já que essa é mais uma característica dos feudos de sangue: a casa é um lugar que não pode ser invadido, então, o condenado que não consegue  fugir passa a viver em prisão domiciliar induzida.  Outra forma de proteção usada até o começo do século XX eram torres construídas nas vilas onde os condenados em feudos de sangue podiam se refugiar – e a de Theth ficava ao lado da casa em que nos hospedamos, chamando a atenção por sua forma diferente. É hoje um museu, e os feudos de sangue não foram retomados ali.

Mas isso é só uma parte do Kanun, que tem 1.262 artigos sobre como as pessoas deveriam se comportar. O que dizem é que hoje em dia o que se refere às vendetas está sendo interpretado de modo distorcido,  aplicado irresponsavelmente, com mulheres sendo também assassinadas, por exemplo, o que é proibido pelo código de conduta. Mas muitas pessoas ainda acreditam que o que está escrito no Kanun de forma geral tem a validade de uma lei e deve ser cumprido.

Mas nós, como viajantes, não vemos nada disso. Ficamos sabendo que os feudos de sangue ainda existem através de guias de turismo e pesquisas, já que o Kanun não afeta os turistas. De acordo com o Comitê Nacional de Reconciliação, uma ONG que busca acabar com a ocorrência de feudos de sangue, o governo albanês finge que este tipo de crime já não acontece mais, já que a prática é condenada internacionalmente e seria um grande empecilho à desejada entrada na União Européia.

A torre-museu de Theth, e um casal montanhês.

Algumas regras do Kanun referentes aos feudos de sangue:

–  Quando alguém é morto, o assassino deve ir imediatamente até a família da vítima para não haver qualquer confusão em relação à sua identidade.

–  O assassino poderá circular a vontade durante a noite, mas com a primeira luz do dia ele deve se esconder.

–  Quem for fazer a emboscada deve ter consigo comida suficiente para ele mesmo e para quem mais o ajudar.

–  Só se pode matar como vingança um homem adulto, com força suficiente para empunhar um rifle em defesa, sendo com isso, proibido o ataque a mulheres, crianças, rebanhos e casas.

–  O assassino não deve ousar pegar a arma de sua vítima. Se ele fizer algo tão desonroso, irá incorrer em dois feudos de sangue.

–   O valor da vida de um homem é o mesmo, independente dele ser bonito ou feio.

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