Rostuše

Fomos a Rostuše (Rostuxe) visitar o Sherif, uma amigo macedônio que conhecemos em Trieste.

Rostuše é praticamente uma única rua subindo a montanha, com montes de lenha de um e do outro lado da estrada. Quase todas as casas têm dois andares e uma de suas paredes cobertas por pedaços de madeira empilhados com perfeição. E era esse o som da cidade: machados ritmados  acompanhados pela constante serra elétrica. O trabalho dos homens. Descobrimos que os adultos e os senhores passam o outono se preparando para o inverno. O trabalho das mulheres era mais escondido, também constante, e dava o cheiro da cidade: a cada dia elas se juntavam na casa de uma, assavam, tiravam os caroços e descascam pimentões vermelhos, que eram triturados e cozidos para virarem conserva para o inverno, a chamada Aivar. Só descobrimos de onde vinha aquele perfume quando fomos visitar os fundos da casa do Sherif.

Os moradores de Rostuše chamam de centro o lugar onde a rua se alarga um pouco, virando um estacionamento e o pátio do colégio de crianças. Nesta espécie de praça fica a única mercearia, o único restaurante e o ponto de encontro em que homens e adolescentes fumam e tomam café. Ao lado desse bar sem bebidas – a vila é muçulmana e não há nenhum lugar em que se possa comprar álcool -, fica um clube de apostas em jogos de futebol.

Durante o dia, as pessoas passam diversas vezes nesta sala um pouco escura e sempre cheia, conferem seus jogos, fazem outros novos. É como um trabalho, com o preenchimento de um caderno que eles carregam de casa para a rua e trazem de volta, com novas apostas, em uma rotina que só tem folga na segunda-feira, quando o clube não abre. Em casa, o trabalho segue. Eles conferem repetidamente num canal especial da TV a cabo como se saíram times para os quais não torcem, mas cujo resultado esperam.

Foi a primeira vez que vi esses clubes de aposta, e achei que era uma forma de fugir de um tédio tão característico da vila – os jovens parecem não saber o que fazer para matar o tempo, imaginam a Europa ocidental como o lugar onde a vida acontece e parecem não conseguir se libertar da repetição. Só mais tarde descobri que esse é um vício balcânico, que depois percebi que estava presente em muitas cidades, muitos países.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s