A capital

No caminho do albergue para o centro de Skopia, passamos por uma grande estátua desmontada de um homem em cima de um cavalo. Parecia o esqueleto de um carro alegórico, o pedaço de uma história que ainda seria contada. E as pessoas de lá passavam ao lado dessa montagem sem reparar na movimentação tão surpreendente para mim –  até então as estátuas me pareciam nascer com a cidade, quando na verdade fazem parte de uma idéia que querem criar sobre ela. E a Macedônia está em plena construção de uma nova imagem, a mais próxima possível da Europa Ocidental e da antiguidade clássica.

Skopia é inesperada, monumental e kitsh. A entrada da praça principal terá um arco do triunfo em estilo napoleônico, que já está quase pronto. Um pouco a frente fica a recém-inaugurada e gigantesca estátua de Alexandre, o Grande. Ele está em plena batalha, em cima de uma coluna rodeada por soldados, leões, fontes e luzes. Em sua órbita e virados para ele, outros personagens importantes para a formação da identidade do país ao longo dos séculos, que confirmam a existência e a história da Macedônia.

E estas não são as únicas estátuas do centro. Ao redor da praça, fora de seu núcleo de heróis, imagens mais cotidianas: mulheres com barrigas de fora e compras na mão; banda de música; mergulhadoras dentro do rio Vardar; estudantes; a Madre Teresa de Calcutá, que nasceu em Skopia. Eram inúmeras estátuas, como eu nunca tinha visto antes, como talvez nenhuma outra cidade tenha, todas feitas recentemente.

E a história recontada do país continua sendo criada através dos prédios. Do lado da praça vê-se um edifício antiquadamente moderno, com vidros espelhados e formas arredondadas. Uma ponte do período otomano atravessa o rio que passa na beira da praça e na outra margem ficará, de um lado, o teatro austro-húngaro, que foi destruído e está sendo refeito uma vez e meia maior e virado para outra direção; do outro ficará o museu de arquelogia, um prédio em estilo clássico, com vidros azuis atrás de colunas gregas feitas de concreto. E de repente me ocorre: na construção dessa história macedônia, nada mais coerente do que um museu de arqueologia no lugar mais visitado da cidade.

A valorização do país está custando ao governo muitos milhões de euros e os próprios macedônios tem diferentes opiniões sobre a nova cara de Skopia: alguns acham incrível, acreditam que isso mostra que são capazes de coisas que as pessoas de fora não acreditam que sejam, outros acham que a cidade está se embarangando, e sentem vergonha.

A Macedônia, este país exprimido pelos vizinhos, tenta se fazer respeitado através de uma imagem grandiosa e ancestral, mas ele acaba parecido com o que eu imagino que seja Las Vegas.

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