Alexandrismo de Massa

Enquanto estávamos na Macedônia, 2 eventos que pararam o país nos disseram muito sobre o imaginário coletivo nacional.

O primeiro foi a inauguração da estátua de Alexandre, em Skopia. Segundo eles, a maior estátua da Europa. No centro da capital, emergindo do meio de uma fonte, com sua espada erguida, luzes violeta, e música clássica sincronizada com os jatos d’ água. Foi construída com dinheiro público, dentro do pacote de construção de monumentos históricos em busca de uma identidade presente.

A estátua-fonte foi considerada uma provocação pelos gregos, que reinvidicam a nacionalidade de Alexandre; dentro do país, foi considerada um monstro brega e desperdício de verba por alguns cidadãos macedônios eslavos, e por quase todos os macedônios albaneses, que não teriam relação alguma com o povo Helênico de Alexandre, e não se sentem representados por ele. Mas a grande maioria da população adorou. A inauguração levou uma multidão entusiasmada vestida de vermelho para o centro da cidade, com direito a discurso presidencial em rede nacional.

Uma semana depois a cena se repetiu com a mesma massa vermelha cantando hinos nacionalistas e/ou  anti-gregos pelas ruas, em cima de carros de bombeiro, quando a seleção de basquete (o primeiro esporte do país) ganhou a partida que lhe garantiu o quarto lugar no campeonato europeu. Buzinaço e êxtase pelas ruas, numa espécie de Alexandrismo coletivo.

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Vizinhos

Conheci Vasko e Aleksandar na pista de skate do lago Orhid.

O sonho dos dois é de um dia irem trabalhar na Itália, ou em qualquer outro país da União Européia, o que mesmo na crise compensaria diante da fraquíssima situação econômica da Macedônia. Para isso, precisariam de um visto de trabalho, ou, como planejam, de conseguir um passaporte europeu, no caso búlgaro, que segundo eles pode ser adquirido pagando um valor de 500 euros. A Bulgária ingressou na UE junto com a Romênia, em 2007.

Perguntei porque era tão fácil obter o passaporte búlgaro, e o Aleksandar prontamente respondeu: “Porque eles nos odeiam. Os gregos dizem que nos odeiam, mas os búlgaros nos odeiam”. Continuei sem entender, e ele desenvolveu, dizendo que ao adquirir o passaporte de lá, os cidadãos macedônios gradualmente constariam nas estatísticas como búlgaros, o que legitimaria uma futura expansão de território da Bulgária. Não sei se a informação é verdadeira, mas achei interessante relatar como registro de como eles enxergam seus vizinhos.

Prossegui minha investigação, e o mesmo sentimento defensivo existe em relação ao expansionismo grego e albanês.

A Albânia está a apenas 30 kms dali, do outro lado do lago. Ao perguntar se algum deles já havia cruzado a fronteira, Vasko me contou que apenas uma vez, para nunca mais voltar. Quase foi linchado por um grupo de albaneses porque estava conversando com uma mulher de lá.

Quando viajam, os macedônios geralmente vão para a Sérvia, para onde eles olham com uma certa admiração. Sempre que mencionamos para macedônios eslavos que o próximo país que visitaríamos seria o Kosovo, nos perguntavam o motivo da ida com total espanto. Nos aconselhavam a não ir, cheios de advertências quanto à falta de segurança e avisos para nunca tentarmos falar de política. Por outro lado, jovens macedônias de origem albanesa costumam passar fins de semana em Pristina, capital kosovar, onde podem se soltar mais nas festas, longe do olhar conservador de suas famílias muçulmanas.

Interessante notar também que os macedônios, como outros países dos Balcãs, se referem à Europa na terceira pessoa, como se pertencessem a um outro continente.

Natal e Calendário Ortodoxo

Em 46 a.C., Júlio Cesar modificou o antigo calendário romano por perceber um lapso crescente entre os dias marcados e as estações do ano. Para resolver o problema, entre outras modificações, 2 novos meses foram acrescentados. Alguns anos depois, o Imperador Augusto fez outros pequenos ajustes.

Em 1582 percebeu-se que a cada 128 anos os equinócios, no calendário, ficavam um dia mais distantes do que o que correspondia à realidade. Por isso, o Papa Gregório XIII convocou uma equipe que, depois de vários cálculos astronômicos, chegou a uma solução: dali em diante, os anos seculares (1600, 1700, etc…), com exceção dos múltiplos de 400, não deveriam ser bissextos. Como a iniciativa partiu de um papa, somente os países de maioria católica a adotaram na época. Com isso, foi resolvido o desajuste dos equinócios, mas acumulou-se uma diferença de 13 dias em relação ao calendário juliano, que continuou sendo usado pelos países de maioria ortodoxa.

Hoje, em vários países cuja maioria segue outras religiões adotou-se o calendário gregoriano. Nos balcânicos de maioria ortodoxa também, com a exceção das datas religiosas. Assim, o Natal, por exemplo, é celebrado no dia 07 de janeiro. E o Ano Novo é comemorado duas vezes: na noite de 31 de dezembro e em uma festa menor em 13 de janeiro, que eles chamam de “Velho Ano Novo”.

Existiam variantes na maneira de celebrar o Natal na ex-Iugoslávia, dependendo da região e da religião. Durante o comunismo, Tito tentou abafar o caráter religioso da festa, importando a figura do Papai Noel com o nome de Dedo Mraz (Vovô Gelo )para distribuir doces e outras pequenas coisas fornecidas pelo governo, só que na noite de ano-novo. Com isso, buscava a simpatia do povo para si, propagava o caráter ateu do comunismo e minimizava as diferenças religiosas em uma Iugoslávia multi-cultural carente de interseções unificantes.

Mas com a queda do regime, em 91, o Natal voltou a ser tratado como uma festa puramente religiosa.

Primeira e Segunda Guerras Balcânicas

Entre 1912 e 13, Sérvia, Montenegro, Grécia e Bulgária se uniram na chamada Liga Balcânica com o objetivo de expulsar um inimigo comum, os invasores otomanos, que já estavam há cerca de 500 anos na região. Acabaram vitoriosos, e como combinado previamente, dividiriam entre si o território da atual Macedônia, libertada dos turcos. Também como consequência, o estado independente da Albânia foi criado, por pressões da Austro-Hungria, que não queria que a Sérvia tivesse acesso ao mar e se tornasse uma potência na região, competindo com seus interesse.

Mas  nesta partilha,  a Liga não conseguiu entrar em um acordo. A Bulgária, na época o mais poderoso dos quatro países, queria uma parte maior da atual Macedônia, além da cidade de Salônica (hoje, Tessaloniki, na Grécia). A Sérvia e a Grécia se uniram então contra a Bulgária, que também ambicionava partes da Romênia e Turquia. Assim, ainda em 1913 deu-se início à Segunda Guerra Balcânica.

Tentando atacar por todos os lados, a Bulgária foi derrotada, e perdeu os territórios que havia conquistado na guerra anterior. Assim, a Sérvia ficou com a parte norte da Macedônia, e a Grécia, com a parte sul. E os ecos dessas batalhas até hoje se fazem sentir.

Arestas

A disputa entre a Grécia e a Macedônia em torno do legado de Alexandre, o Grande respingou na bandeira adotada pela República da Macedônia quando ela se separou da Iugoslávia, em 91. O recém criado país estampou sobre o fundo vermelho da nova bandeira o “Sol de Vergina”, ou “Estrela Argeada”, uma estrela de 16 pontas descoberta por arqueólogos em 1977 em Vergina, cidade da Macedônia grega, e que teria sido usada como símbolo pelo exército de Alexandre.

Os gregos, que desde a descoberta vinham usando a imagem sobre um fundo azul em prefeituras e outras oficialidades da região da Macedônia grega, ficaram furiosos com a apropriação dos vizinhos do norte. E também não gostaram da escolha os albaneses macedônios, que se sentiram excluídos com a escolha de um símbolo que ignorava completamente o lado ilírio do país.

A batalha pelos direitos de uso do símbolo se estendeu até 95, quando a ONU resolveu intervir para estabilizar as tensões diplomáticas e econômicas. Propuseram que a imagem fosse substituída pelo sol de 8 raios, imagem também encontrada em escavações na cidade macedônica de Kratovo.

E assim se deu, apesar de alguns nacionalistas macedônios mais efusivos insistirem em usar, extra-oficialmente, a de 16.