Alexandrismo de Massa

Enquanto estávamos na Macedônia, 2 eventos que pararam o país nos disseram muito sobre o imaginário coletivo nacional.

O primeiro foi a inauguração da estátua de Alexandre, em Skopia. Segundo eles, a maior estátua da Europa. No centro da capital, emergindo do meio de uma fonte, com sua espada erguida, luzes violeta, e música clássica sincronizada com os jatos d’ água. Foi construída com dinheiro público, dentro do pacote de construção de monumentos históricos em busca de uma identidade presente.

A estátua-fonte foi considerada uma provocação pelos gregos, que reinvidicam a nacionalidade de Alexandre; dentro do país, foi considerada um monstro brega e desperdício de verba por alguns cidadãos macedônios eslavos, e por quase todos os macedônios albaneses, que não teriam relação alguma com o povo Helênico de Alexandre, e não se sentem representados por ele. Mas a grande maioria da população adorou. A inauguração levou uma multidão entusiasmada vestida de vermelho para o centro da cidade, com direito a discurso presidencial em rede nacional.

Uma semana depois a cena se repetiu com a mesma massa vermelha cantando hinos nacionalistas e/ou  anti-gregos pelas ruas, em cima de carros de bombeiro, quando a seleção de basquete (o primeiro esporte do país) ganhou a partida que lhe garantiu o quarto lugar no campeonato europeu. Buzinaço e êxtase pelas ruas, numa espécie de Alexandrismo coletivo.

Anúncios

A capital

No caminho do albergue para o centro de Skopia, passamos por uma grande estátua desmontada de um homem em cima de um cavalo. Parecia o esqueleto de um carro alegórico, o pedaço de uma história que ainda seria contada. E as pessoas de lá passavam ao lado dessa montagem sem reparar na movimentação tão surpreendente para mim –  até então as estátuas me pareciam nascer com a cidade, quando na verdade fazem parte de uma idéia que querem criar sobre ela. E a Macedônia está em plena construção de uma nova imagem, a mais próxima possível da Europa Ocidental e da antiguidade clássica.

Skopia é inesperada, monumental e kitsh. A entrada da praça principal terá um arco do triunfo em estilo napoleônico, que já está quase pronto. Um pouco a frente fica a recém-inaugurada e gigantesca estátua de Alexandre, o Grande. Ele está em plena batalha, em cima de uma coluna rodeada por soldados, leões, fontes e luzes. Em sua órbita e virados para ele, outros personagens importantes para a formação da identidade do país ao longo dos séculos, que confirmam a existência e a história da Macedônia.

E estas não são as únicas estátuas do centro. Ao redor da praça, fora de seu núcleo de heróis, imagens mais cotidianas: mulheres com barrigas de fora e compras na mão; banda de música; mergulhadoras dentro do rio Vardar; estudantes; a Madre Teresa de Calcutá, que nasceu em Skopia. Eram inúmeras estátuas, como eu nunca tinha visto antes, como talvez nenhuma outra cidade tenha, todas feitas recentemente.

E a história recontada do país continua sendo criada através dos prédios. Do lado da praça vê-se um edifício antiquadamente moderno, com vidros espelhados e formas arredondadas. Uma ponte do período otomano atravessa o rio que passa na beira da praça e na outra margem ficará, de um lado, o teatro austro-húngaro, que foi destruído e está sendo refeito uma vez e meia maior e virado para outra direção; do outro ficará o museu de arquelogia, um prédio em estilo clássico, com vidros azuis atrás de colunas gregas feitas de concreto. E de repente me ocorre: na construção dessa história macedônia, nada mais coerente do que um museu de arqueologia no lugar mais visitado da cidade.

A valorização do país está custando ao governo muitos milhões de euros e os próprios macedônios tem diferentes opiniões sobre a nova cara de Skopia: alguns acham incrível, acreditam que isso mostra que são capazes de coisas que as pessoas de fora não acreditam que sejam, outros acham que a cidade está se embarangando, e sentem vergonha.

A Macedônia, este país exprimido pelos vizinhos, tenta se fazer respeitado através de uma imagem grandiosa e ancestral, mas ele acaba parecido com o que eu imagino que seja Las Vegas.

Cume

Em um dos seis dias que passamos em Rostuše, fizemos uma caminhada de quase 12 horas subindo a montanha para colher blueberries, que seriam usados para fazer geléias e sucos para o inverno. Desde o começo do caminho víamos o topo aonde chegaríamos, a fronteira entre a Macedônia e a Albânia.

Lá em cima a vista é deslumbrante, a floresta do início vira um mato ralinho, e há uma fazenda de cabras e ovelhas durante o verão. Fomos em um dos últimos dias antes do frio, e quase todos os animais já estavam de volta em seus celeiros nas vilas no pé da montanha. O senhor que cuidava dos bichos ainda estava lá. Passando por cães pastores que nos tratavam como intrusos, nos sentamos em uma sala que era uma tenda de madeira um pouco separada da cocheira. Fomos recebidos com queijo de cabra fresco e rakjia, o destilado local, os dois feitos lá em cima. Enquanto comíamos e bebíamos – e ele não nos deixava parar – falava e ria alto, emendava histórias. Dizia da estupidez das pessoas em geral, da inteligência dos cachorros, da falta de proteção da fronteira, do descaso da polícia.

Saímos da visita levemente bêbados, rindo dos casos.

E então me contaram que uma vez, em uma brincadeira no meio de uma bebedeira, um companheiro de trabalho lhe deu um tiro na perna. Estavam no alto da montanha. O caminho até o hospital teria que ser feito a pé, eram cerca de 8 kms de ribanceira. Ele, para estancar o sangue, encheu o buraco da perna de feijões.

Rostuše

Fomos a Rostuše (Rostuxe) visitar o Sherif, uma amigo macedônio que conhecemos em Trieste.

Rostuše é praticamente uma única rua subindo a montanha, com montes de lenha de um e do outro lado da estrada. Quase todas as casas têm dois andares e uma de suas paredes cobertas por pedaços de madeira empilhados com perfeição. E era esse o som da cidade: machados ritmados  acompanhados pela constante serra elétrica. O trabalho dos homens. Descobrimos que os adultos e os senhores passam o outono se preparando para o inverno. O trabalho das mulheres era mais escondido, também constante, e dava o cheiro da cidade: a cada dia elas se juntavam na casa de uma, assavam, tiravam os caroços e descascam pimentões vermelhos, que eram triturados e cozidos para virarem conserva para o inverno, a chamada Aivar. Só descobrimos de onde vinha aquele perfume quando fomos visitar os fundos da casa do Sherif.

Os moradores de Rostuše chamam de centro o lugar onde a rua se alarga um pouco, virando um estacionamento e o pátio do colégio de crianças. Nesta espécie de praça fica a única mercearia, o único restaurante e o ponto de encontro em que homens e adolescentes fumam e tomam café. Ao lado desse bar sem bebidas – a vila é muçulmana e não há nenhum lugar em que se possa comprar álcool -, fica um clube de apostas em jogos de futebol.

Durante o dia, as pessoas passam diversas vezes nesta sala um pouco escura e sempre cheia, conferem seus jogos, fazem outros novos. É como um trabalho, com o preenchimento de um caderno que eles carregam de casa para a rua e trazem de volta, com novas apostas, em uma rotina que só tem folga na segunda-feira, quando o clube não abre. Em casa, o trabalho segue. Eles conferem repetidamente num canal especial da TV a cabo como se saíram times para os quais não torcem, mas cujo resultado esperam.

Foi a primeira vez que vi esses clubes de aposta, e achei que era uma forma de fugir de um tédio tão característico da vila – os jovens parecem não saber o que fazer para matar o tempo, imaginam a Europa ocidental como o lugar onde a vida acontece e parecem não conseguir se libertar da repetição. Só mais tarde descobri que esse é um vício balcânico, que depois percebi que estava presente em muitas cidades, muitos países.

Vizinhos

Conheci Vasko e Aleksandar na pista de skate do lago Orhid.

O sonho dos dois é de um dia irem trabalhar na Itália, ou em qualquer outro país da União Européia, o que mesmo na crise compensaria diante da fraquíssima situação econômica da Macedônia. Para isso, precisariam de um visto de trabalho, ou, como planejam, de conseguir um passaporte europeu, no caso búlgaro, que segundo eles pode ser adquirido pagando um valor de 500 euros. A Bulgária ingressou na UE junto com a Romênia, em 2007.

Perguntei porque era tão fácil obter o passaporte búlgaro, e o Aleksandar prontamente respondeu: “Porque eles nos odeiam. Os gregos dizem que nos odeiam, mas os búlgaros nos odeiam”. Continuei sem entender, e ele desenvolveu, dizendo que ao adquirir o passaporte de lá, os cidadãos macedônios gradualmente constariam nas estatísticas como búlgaros, o que legitimaria uma futura expansão de território da Bulgária. Não sei se a informação é verdadeira, mas achei interessante relatar como registro de como eles enxergam seus vizinhos.

Prossegui minha investigação, e o mesmo sentimento defensivo existe em relação ao expansionismo grego e albanês.

A Albânia está a apenas 30 kms dali, do outro lado do lago. Ao perguntar se algum deles já havia cruzado a fronteira, Vasko me contou que apenas uma vez, para nunca mais voltar. Quase foi linchado por um grupo de albaneses porque estava conversando com uma mulher de lá.

Quando viajam, os macedônios geralmente vão para a Sérvia, para onde eles olham com uma certa admiração. Sempre que mencionamos para macedônios eslavos que o próximo país que visitaríamos seria o Kosovo, nos perguntavam o motivo da ida com total espanto. Nos aconselhavam a não ir, cheios de advertências quanto à falta de segurança e avisos para nunca tentarmos falar de política. Por outro lado, jovens macedônias de origem albanesa costumam passar fins de semana em Pristina, capital kosovar, onde podem se soltar mais nas festas, longe do olhar conservador de suas famílias muçulmanas.

Interessante notar também que os macedônios, como outros países dos Balcãs, se referem à Europa na terceira pessoa, como se pertencessem a um outro continente.

Ohrid

O lago Ohrid é um dos mais antigos do mundo, e eu nunca tinha pensado antes que os lagos tinham idade. É o encontro da Albânia com a Macedônia, azul, transparente, morno, suave.

A cidade mais famosa dele fica do lado macedônio, e tem o mesmo nome lago. Quem mora por lá gosta de dizer que é a Jerusalém Ortodoxa, onde um dia já houve  uma igreja para cada dia do ano,
além de ser o lugar onde o alfabeto cirílico atual foi criado. E, como se não bastasse a beleza e a fama –
é um dos poucos lugares do mundo que é patrimônio cultural e natural do mundo, pela UNESCO, ao mesmo tempo -, uma lenda local, que não consegui confirmar em lugar algum e que provavelmente deixaria os gregos indignados, diz que Dionísio, o deus grego do vinho e das festas, nasceu ali. Tendo ou não nascido, há um pequeno santuário dedicado a ele, com mosaicos com imagens de animais, uvas e suásticas, construído nos tempos da Grécia antiga.

Chegamos em Ohrid em setembro, e o Marion, que nos alugou o quarto, disse que era a melhor época do ano: “damos o verão aos turistas, quando trabalhamos e ganhamos dinheiro, e pegamos setembro para nós”. Depois da temporada, as praias ficam vazias, o calor diminui, os dias são lindos.

E já no primeiro dia descobrimos nossa praia escondida, de pedrinhas arredondadas e sem quase ninguém, onde fizemos amigos macedônios inseparáveis pelos 15 dias que ficamos na cidade. Em um dos últimos, tivemos que dividir nosso pequeno paraíso com uma equipe de cinema, que gravava cenas de um filme sérvio-macedônio. Eles chegaram lá com lanchas e outros aparatos, tirando um pouco do silêncio, dando um pouco mais de emoção.

Endereços sonetos

Foi a Sarah, uma amiga americana que nos hospedou, que contou que faz apenas um ano e meio que as ruas de Tirana têm nomes. E eles ainda são pouco usados, claro, já que ninguém reconhece os lugares a partir dessa nova forma de chamá-los. Mesmo em cartas, o que ainda se faz é descrever os endereços a partir de um ponto de referência conhecido – pode ser uma avenida, uma loja, um colégio – e então segue-se o caminho: descer o boulevard da estação até o rio, pegar a direita, virar na esquina da oliveira grande, casa azul número 47. Quando se tem sorte de morar perto de alguma coisa famosa fica fácil: ao lado do cassino. Deve ser por essa precariedade que é muito comum as correspondências se perderem por lá.

E foi assim que descobri que endereços são novos em muitos lugares. Depois de 3 meses, ficamos na casa de um casal de amigos em Istambul e eles moravam em uma rua sem nome, apesar disso não ser comum naquela cidade tão cosmopolita. E foram eles que me contaram que endereços como conhecemos são relativamente recentes na Turquia e era comum em pequenas vilas acharem impossível dar às ruas um nome, já que não havia moradores suficiente famosos em cada uma delas para merecer nomear o lugar. Eles acreditavam que se uma rua se chamasse por exemplo Atatürk, o grande herói nacional turco, significava que ele tinha uma casa por ali. Mas isso pode também ser só uma lenda turca.