Lenda da Resistência

Umas das coisas que mais gosto nas cidades antigas são suas lendas. Ohrid tem algumas, como a da Igreja de St. Kyriakia, que os otomanos queriam transformar em mesquita ao invadirem a cidade, no fim do século XIV. Para ser uma mesquita, a igreja precisava de algumas reformas e de um minarete, que foi construído e depois desabou, foi então reconstruído e mais uma vez desabou, e assim seguidas vezes. Aí os turcos experimentaram recolocar a cruz da ex-igreja no recém erguido minarete e ele então ficou de pé. E está lá até hoje, misturando duas religiões em um único prédio.

Ficamos sabendo dessa história logo antes de partirmos de Ohrid, por isso nem vimos nem tiramos fotos dessa mesquita – ficamos com a descrição do nosso amigo Jean. Mais uma vez, havia chegado a hora de ir embora.

Vizinhos

Conheci Vasko e Aleksandar na pista de skate do lago Orhid.

O sonho dos dois é de um dia irem trabalhar na Itália, ou em qualquer outro país da União Européia, o que mesmo na crise compensaria diante da fraquíssima situação econômica da Macedônia. Para isso, precisariam de um visto de trabalho, ou, como planejam, de conseguir um passaporte europeu, no caso búlgaro, que segundo eles pode ser adquirido pagando um valor de 500 euros. A Bulgária ingressou na UE junto com a Romênia, em 2007.

Perguntei porque era tão fácil obter o passaporte búlgaro, e o Aleksandar prontamente respondeu: “Porque eles nos odeiam. Os gregos dizem que nos odeiam, mas os búlgaros nos odeiam”. Continuei sem entender, e ele desenvolveu, dizendo que ao adquirir o passaporte de lá, os cidadãos macedônios gradualmente constariam nas estatísticas como búlgaros, o que legitimaria uma futura expansão de território da Bulgária. Não sei se a informação é verdadeira, mas achei interessante relatar como registro de como eles enxergam seus vizinhos.

Prossegui minha investigação, e o mesmo sentimento defensivo existe em relação ao expansionismo grego e albanês.

A Albânia está a apenas 30 kms dali, do outro lado do lago. Ao perguntar se algum deles já havia cruzado a fronteira, Vasko me contou que apenas uma vez, para nunca mais voltar. Quase foi linchado por um grupo de albaneses porque estava conversando com uma mulher de lá.

Quando viajam, os macedônios geralmente vão para a Sérvia, para onde eles olham com uma certa admiração. Sempre que mencionamos para macedônios eslavos que o próximo país que visitaríamos seria o Kosovo, nos perguntavam o motivo da ida com total espanto. Nos aconselhavam a não ir, cheios de advertências quanto à falta de segurança e avisos para nunca tentarmos falar de política. Por outro lado, jovens macedônias de origem albanesa costumam passar fins de semana em Pristina, capital kosovar, onde podem se soltar mais nas festas, longe do olhar conservador de suas famílias muçulmanas.

Interessante notar também que os macedônios, como outros países dos Balcãs, se referem à Europa na terceira pessoa, como se pertencessem a um outro continente.

Outras letras

Os alfabetos glagótico, grego e cirílico

Ainda na Bósnia começamos a estudar o alfabeto cirílico. Apesar dos bósnios usarem o latino nas duas cidades que visitamos (só a parte sérvia do país usa o cirílico), estávamos nos preparando para a ida a Montenegro. Encontramos na internet as letras, ensaiamos escrever nossos nomes, descobrimos que o cirílico não é como o alfabeto latino, igual em todos os lugares dos mundo, mas têm algumas variações de país para país, e diferentes quantidades de letras.

Chegamos em Montenegro e descobrimos que lá, há já alguns anos, praticamente só se usa o alfabeto latino. Paramos nossos estudos. Depois fomos para a Albânia e só quando chegamos em Ohrid nos concentramos novamente no cirílico, desta vez no berço do alfabeto, por pura sorte.

No século XI, os  irmãos Cirilo e Metódio, de uma família rica de Tessaloniki, hoje Grécia, foram designados pelos bizantinos a irem para a região da atual Eslováquia, com a missão de criar um novo alfabeto que exprimisse sons presentes nas línguas eslavas e que não existiam no grego, a língua oficial daquele império. O alfabeto seria utilizado na tradução da Bíblia, o que facilitaria a conversão dos povos eslavos ao cristianismo e contribuiria na consolidação os domínios de Constantinopla através de uma religião comum.

O alfabeto criado pelos dois irmãos é uma mistura dos alfabetos grego, latino e hebraico, e ficou conhecido como glagótico – glagola significa verbo em russo moderno, e provavelmente tem origem no verbo ‘falar’, em eslavo antigo.

Mas o glagótico era muito rebuscado, com suas letras arredondadas que remetiam à forma das igrejas ortodoxas, difícil demais para ser usado correntemente, na tradução dos textos sagrados. Para então se chegar a um alfabeto utilizável, o imperador búlgaro Simeão pediu à Clemente de Ohrid, discípulo de Cirilo e Metódio, que desenvolvesse o alfabeto que conhecemos hoje como cirílico, uma mistura do galgótico com o grego.

Com o passar do tempo, o alfabeto cirílico passou a ser usado em grande parte dos países eslavos – Macedônia, Montenegro, Sérvia, Bulgária, parte sérvia da Bósnia (chamada de República Sérvia), Rússia, Bielorússia e Ucrânia –, além de países não eslavos que eram parte da URSS, como Mongólia, Cazaquistão, Uzbesquistão e Quirquiztão.

Estátuas dos irmãos Cirilo e Metódio, em Sofia, Bulgária.

Natal e Calendário Ortodoxo

Em 46 a.C., Júlio Cesar modificou o antigo calendário romano por perceber um lapso crescente entre os dias marcados e as estações do ano. Para resolver o problema, entre outras modificações, 2 novos meses foram acrescentados. Alguns anos depois, o Imperador Augusto fez outros pequenos ajustes.

Em 1582 percebeu-se que a cada 128 anos os equinócios, no calendário, ficavam um dia mais distantes do que o que correspondia à realidade. Por isso, o Papa Gregório XIII convocou uma equipe que, depois de vários cálculos astronômicos, chegou a uma solução: dali em diante, os anos seculares (1600, 1700, etc…), com exceção dos múltiplos de 400, não deveriam ser bissextos. Como a iniciativa partiu de um papa, somente os países de maioria católica a adotaram na época. Com isso, foi resolvido o desajuste dos equinócios, mas acumulou-se uma diferença de 13 dias em relação ao calendário juliano, que continuou sendo usado pelos países de maioria ortodoxa.

Hoje, em vários países cuja maioria segue outras religiões adotou-se o calendário gregoriano. Nos balcânicos de maioria ortodoxa também, com a exceção das datas religiosas. Assim, o Natal, por exemplo, é celebrado no dia 07 de janeiro. E o Ano Novo é comemorado duas vezes: na noite de 31 de dezembro e em uma festa menor em 13 de janeiro, que eles chamam de “Velho Ano Novo”.

Existiam variantes na maneira de celebrar o Natal na ex-Iugoslávia, dependendo da região e da religião. Durante o comunismo, Tito tentou abafar o caráter religioso da festa, importando a figura do Papai Noel com o nome de Dedo Mraz (Vovô Gelo )para distribuir doces e outras pequenas coisas fornecidas pelo governo, só que na noite de ano-novo. Com isso, buscava a simpatia do povo para si, propagava o caráter ateu do comunismo e minimizava as diferenças religiosas em uma Iugoslávia multi-cultural carente de interseções unificantes.

Mas com a queda do regime, em 91, o Natal voltou a ser tratado como uma festa puramente religiosa.

Primeira e Segunda Guerras Balcânicas

Entre 1912 e 13, Sérvia, Montenegro, Grécia e Bulgária se uniram na chamada Liga Balcânica com o objetivo de expulsar um inimigo comum, os invasores otomanos, que já estavam há cerca de 500 anos na região. Acabaram vitoriosos, e como combinado previamente, dividiriam entre si o território da atual Macedônia, libertada dos turcos. Também como consequência, o estado independente da Albânia foi criado, por pressões da Austro-Hungria, que não queria que a Sérvia tivesse acesso ao mar e se tornasse uma potência na região, competindo com seus interesse.

Mas  nesta partilha,  a Liga não conseguiu entrar em um acordo. A Bulgária, na época o mais poderoso dos quatro países, queria uma parte maior da atual Macedônia, além da cidade de Salônica (hoje, Tessaloniki, na Grécia). A Sérvia e a Grécia se uniram então contra a Bulgária, que também ambicionava partes da Romênia e Turquia. Assim, ainda em 1913 deu-se início à Segunda Guerra Balcânica.

Tentando atacar por todos os lados, a Bulgária foi derrotada, e perdeu os territórios que havia conquistado na guerra anterior. Assim, a Sérvia ficou com a parte norte da Macedônia, e a Grécia, com a parte sul. E os ecos dessas batalhas até hoje se fazem sentir.

Arestas

A disputa entre a Grécia e a Macedônia em torno do legado de Alexandre, o Grande respingou na bandeira adotada pela República da Macedônia quando ela se separou da Iugoslávia, em 91. O recém criado país estampou sobre o fundo vermelho da nova bandeira o “Sol de Vergina”, ou “Estrela Argeada”, uma estrela de 16 pontas descoberta por arqueólogos em 1977 em Vergina, cidade da Macedônia grega, e que teria sido usada como símbolo pelo exército de Alexandre.

Os gregos, que desde a descoberta vinham usando a imagem sobre um fundo azul em prefeituras e outras oficialidades da região da Macedônia grega, ficaram furiosos com a apropriação dos vizinhos do norte. E também não gostaram da escolha os albaneses macedônios, que se sentiram excluídos com a escolha de um símbolo que ignorava completamente o lado ilírio do país.

A batalha pelos direitos de uso do símbolo se estendeu até 95, quando a ONU resolveu intervir para estabilizar as tensões diplomáticas e econômicas. Propuseram que a imagem fosse substituída pelo sol de 8 raios, imagem também encontrada em escavações na cidade macedônica de Kratovo.

E assim se deu, apesar de alguns nacionalistas macedônios mais efusivos insistirem em usar, extra-oficialmente, a de 16.

Ohrid

O lago Ohrid é um dos mais antigos do mundo, e eu nunca tinha pensado antes que os lagos tinham idade. É o encontro da Albânia com a Macedônia, azul, transparente, morno, suave.

A cidade mais famosa dele fica do lado macedônio, e tem o mesmo nome lago. Quem mora por lá gosta de dizer que é a Jerusalém Ortodoxa, onde um dia já houve  uma igreja para cada dia do ano,
além de ser o lugar onde o alfabeto cirílico atual foi criado. E, como se não bastasse a beleza e a fama –
é um dos poucos lugares do mundo que é patrimônio cultural e natural do mundo, pela UNESCO, ao mesmo tempo -, uma lenda local, que não consegui confirmar em lugar algum e que provavelmente deixaria os gregos indignados, diz que Dionísio, o deus grego do vinho e das festas, nasceu ali. Tendo ou não nascido, há um pequeno santuário dedicado a ele, com mosaicos com imagens de animais, uvas e suásticas, construído nos tempos da Grécia antiga.

Chegamos em Ohrid em setembro, e o Marion, que nos alugou o quarto, disse que era a melhor época do ano: “damos o verão aos turistas, quando trabalhamos e ganhamos dinheiro, e pegamos setembro para nós”. Depois da temporada, as praias ficam vazias, o calor diminui, os dias são lindos.

E já no primeiro dia descobrimos nossa praia escondida, de pedrinhas arredondadas e sem quase ninguém, onde fizemos amigos macedônios inseparáveis pelos 15 dias que ficamos na cidade. Em um dos últimos, tivemos que dividir nosso pequeno paraíso com uma equipe de cinema, que gravava cenas de um filme sérvio-macedônio. Eles chegaram lá com lanchas e outros aparatos, tirando um pouco do silêncio, dando um pouco mais de emoção.